Louca sua miga

22 de fev de 2017

Separados pelo nosso "depois daqui"

Imagem: Reprodução/Tumblr

Escrito por Maya Quaresma
21 - 02 - 2017 às 14:28h

Eu te reparei muito antes de você me reparar. Com seu sapato da Mofficer, sua calça cor de terra molhada e camisa de gola e botão, cinza. Em minha frente na fila da escada do meu restaurante favorito. Eu apressada porque precisava almoçar logo e ir embora para pegar um voo logo mais, depois daqui. Pensando que eu não queria deixar essa cidade. Que eu não queria deixar essa rotina. Que eu não queria ir. Simplesmente. Então você virou. Me olhou, com seus olhos cor de imensidão. E sorriu. Você sorriu para mim e eu pude descobrir que seu rosto faz duas covinhas ao lado dos lábios. E que seus olhos já possuem algumas marquinhas. E isso só fez de você ainda mais lindo.

Você sorriu e tudo o que eu queria era poder descobrir um pouco mais sobre você. Loucura? Certamente. Mas eu queria saber quem você era. O que fazia. Qual o seu trabalho. Os seus sonhos. Se já tinha morado fora do país. Se já pulou de para quedas. Você tem uma cara de homem aventureiro. Do estilo mochileiro. E fiquei imaginando que gostaria de viajar com você. Que gostaria de sair por aí sem rumo e sem destino. Desbravando continentes. Desbravando territórios. Conhecendo novos lugares. Novas rotas. Novos costumes. Novas culturas. Novos sabores. E então eu me peguei imaginando o teu sabor. Em como eu gostaria de saber como era você, parte por parte. Pedaço por pedaço. Linha por linha. Traço por traço. Sinal por sinal. Cada detalhe. 

Dos desejos incontroláveis que só essa cidade me proporciona. Que só essa cidade desencadeia em mim. Eu que estou fugindo dos caras. Fugindo dos romances. Fugindo dos rolos. Fugindo de qualquer coisa que roube ou me tire a paz. Sangrei demais. Sofri demais. Chorei demais. Ficar só é uma opção e gosto de fazer bom uso dela. Mas aí você chega com essas covinhas que são a premonição do paraíso. E eu me apego totalmente a cada parte tua. Dos pés ao cabelo cor de terra. Dos olhos de imensidão, tão azuis que eu me perderia fácil neles rumo ao céu. Me afogaria nesse mar sem medo de que alguém não me salvasse. 

Fiquei com aquela vontade de te dizer algo. Pensei em te dizer algo. Você parecia esperar que eu falasse algo. Me fitou e eu apenas te fitei. Com um turbilhão em minha mente e aquela realidade pulsante me dizendo que, não poderia ser. Não hoje. Não aqui. Não agora.

Não era hoje que eu iria descobrir onde você trabalha. O que gosta de fazer da vida. Quais são seus sonhos. Se já pulou de para quedas. Ou se eu poderia fazer parte da tua próxima aventura. Ou se poderíamos ser a aventura um do outro. Eu tinha um voo para pegar. E esse pedaço da minha realidade que me puxava para trás. Que fazia recuar quando eu menos queria. Queria te fazer companhia. Queria mesmo. 

Mas você virou. Deu as costas solitário para mim e eu fiquei, solitária. Com meus pensamentos vagando soltos perdidos no tempo e espaço. E você seguiu para sua mesa. Sozinho. E eu segui para a minha. Sozinha. E nunca a solidão me foi tão corrosiva. Eu estava no lugar certo, na hora certa, com uma pessoa interessante. Porém separados pelo nosso "depois daqui".


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